Monday, May 7, 2007

Dias 10, 11 e 12 - Khao Sok National Park

Dia 10
Como tem sido uma constante, os planos aqui nunca são respeitados. Há sempre alguém que se conhece no caminho que nos diz valer a pena fazer isto ou ir por ali.
Decidi não ir para sul com eles! Fui antes 100km para leste. Resolvi fazer dois dias de Selva no Parque Nacional de Khao Sok. Arranjei um guia por dois dias enquanto eles rumaram a sul, Malásia, o porto franco de Langkawi, para fazer compras (Maquinas fotográficas digitais).

-Acordar
-Pequeno almoço
-Preparar mochilas, uma muda de roupa e máquinas fotográficas
-Despedidas (eles foram fazer uma pequena incursão pela selva antes de seguirem para sul).
Segui de carro durante uma hora até chegar à entrada do Parque Nacional de Khao Sok onde para entrar é necessário assinar um registo de entrada com nome dia e hora e nº de passaporte, e data prevista de saída. Provavelmente para controlarem quem possa ficar perdido lá no meio
Após ter assinado saltei para dentro de um barquito a motor com o guia e mais um casal de miúdos ingleses e seguimos durante quase uma hora por entre ilhas altíssimas com escarpas em rocha e vegetação no topo, ao fim da qual chegamos a um pequeno hotel flutuante. Este pseudo hotel consiste num conjunto de cabanas flutuantes em que a única coisa que tinham dentro era um colchão e um mosquiteiro.
Estas cabanas flutuavam sobre 40m de profundidade de água e só 5 cm acima dela. Levei a noite toda a sonhar com afogamentos e que a minha cabana estava a ser invadida por sangue sugas saídas da água (mal sabia eu o que ainda me esperava). Não foi das minhas melhores noites!!!!
Peguei nas máquinas e num caiaque que lá havia e fui dar um passeio de 2 horas pelos canais entre as ilhas do lago.

A vegetação é luxuriante e a profundidade do lago é superior a 50m. Apesar de se verem alguns animais selvagens, macacos, águias, guarda rios etc. a principal atracção é mesmo a beleza natural do lago das ilhas e da vegetação luxuriante. O safari nocturno como pomposamente lhe chamam, é mais um passeio em que com um holofote se tentam vislumbrar alguns animais dos quais o melhor que se consegue é pouco mais que uma silhueta e o reflexo dos olhos. O mais impressionante é andar naqueles meandros com as imponentes silhuetas daquelas ilhas escarpadas a servirem-nos de ombreira constante e a ameaçarem cair sobre nós no escuro.
Mais uma vez se confirma que os Thais são um povo muito simpático e embora seja difícil fazermo-nos compreender a mímica ajuda sempre.
Uma particularidade interessante são os barcos, em madeira com um motor de dois tempos, com um enorme tubo basculante acoplado, na ponta do qual está a hélice.
O facto de estar sempre a chover teve uma vantagem. Deu-me tempo para parar e aqui neste alpendre palafita estar a pôr o meu diário de viagem em dia. É impressionante o que chove. Sem telemóvel está-se aqui literalmente incontactável.
Aproveitei para conversar com o meu guia, Leck de 28 anos. Para local deveria ser bem sucedido, tinha duas mulheres e o mais estranho foi ele perguntar porque é que eu não tinha pelo menos uma mulher, uma vez que deveria ser mais rico que ele.
Apercebi-me entretanto que a minha viagem entrou em contagem decrescente das 3 semanas em que nos começamos a aperceber do tempo que já não temos disponível para ver e fazer tudo o que ainda queremos. Amanhã é um dia de caminhada na selva e ao fim do dia tentar chegar a Surat Thani a tempo para me encontrar com eles e apanhar o “night train” para Norte, direcção Chiang Mai, com uma paragem em Bangkok para troca de comboios.
A vantagem desta nossa viagem é não ter tabelas para nada, tudo é decidido na hora, de acordo com as ligações possíveis, e é preciso um certo estômago para o que vamos encontrando e principalmente boa disposição e tentar tirar o melhor partido do que não corre exactamente como queremos. Quando há divergências, amigo não empata amigo, é apenas necessário saber como marcar depois um ponto de encontro, espero que tudo corra bem sem desencontros.
Podíamos ter tido mais sorte com o tempo e com as actividades. Por outro lado uma tarde relaxante também tem as suas vantagens. Fui engrupido!!! Faz parte não desanimar!! Devia ter ido com eles!!!


Dia 11

Regra n1: A selva não é sítio para quem não gosta de acordar cedo: 5 da manha
-Pequeno almoço.
-Saltámos para o barco e seguimos para um local em que após uma incursão pela selva iríamos escalar um monte, do cimo do qual se conseguiria ter uma vista fantástica

Regra n2: Se têm nojo de sanguessugas não se preocupem com elas.
Façam o que fizerem, quer se preocupem quer não, elas farão um banquete com as nossas pernas e pés. Por isso mais vale não pensar nisso e tentar aproveitar a caminhada. Eu ainda usei as minhas botas que vão bem acima do tornozelo, bem apertadas e mesmo assim, não sei como, conseguiram entrar. Não dei por nada, nem mesmo depois de ter sido vampirizado.

Regra n3: Quando se apoiarem numa arvore olhem onde põem a mão.
Esmaguei um insecto enorme, não sei se era dos más ou não, mas o mal foi dele. Ia fazendo o mesmo a uma daquelas centopeias enormes. Já agora ao apoiarem-se vejam se a árvore é sólida, não vá ao abanar caírem mais coisas do que apenas água, embora não tenha sido em cima de mim.

Regra n4: Levar roupa velha.
Tudo o que tinha vestido hoje já esta no lixo.

Regra n5: A noção de tempo para eles é perfeitamente aleatória
Quando se pergunta quanto falta para chegar a qualquer sitio, a resposta, em inglês macarrónico "Close, close, tenti minut" não quer dizer nada porque após uma hora, se perguntarmos "How close" a resposta é "Same, same, tenti minut" perante o que se desiste de perguntar.

No fim escalámos uma encosta enorme. Valeu a pena pela paisagem, a vista sobre a selva e o lago era lindíssima. Tirei uma série de fotos que espero que saiam bem.
Foi aí em cima que me apercebi da colónia de sanguessugas que tinha dentro das botas. As minhas meias estavam todas vermelhas do sangue. Quando mordem, injectam um anticoagulante, em que se fica a sangrar durante algum tempo, embora sem qualquer risco. Só assusta quando se vê o sangue todo e não se sabe ainda o que se passou e que eram apenas sanguessugas.

Após percorrer o caminho inverso voltamos ao barco onde fomos até uma cascata que descia ao longo da selva por entre árvores durante cerca de 300 metros.

Na volta, já de barco, parámos numa pequena aldeia flutuante, onde é possível perceber a forma de vida simples das pessoas que ali vivem.

Após essa paragem destinámos para a entrada do parque, onde tive que assinar uma segunda vez para saberem que eu já tinha saído. Uma particularidade deste parque é ter a maior flor do mundo. Na realidade é um fungo que dá uma flor gigante

Quando saímos da reserva, o transporte acordado só passaria uma hora mais tarde, o que implicava perder a última camioneta para Surat Thani. Falei com o meu guia e ele conseguiu improvisar boleia na traseira de uma “pickup”. E seguimos para o “Freedom Resort” no outro lado da selva a uma hora de distância. Estes gajos são doidos a conduzir. Achei mesmo que foi uma estupidez não ter feito seguro de saúde, mas "passa nada".
-Chegar ao “Freedom Resort”
-Fechar malas a correr
-E pagar enquanto o meu guia foi arranjar forma de me levar dali até à paragem de camioneta. Apareceu numa motorizada pequenina... a minha figura de mochilona às costas montado naquela motoreta, atrás do meu guia, deve ter sido no mínimo hilariante!!
Conseguimos chegar ao local da paragem da camioneta a tempo de eu ainda a conseguir apanhar. Após a correria para chegar a tempo, estava com uma sede de várias horas! Havia uma barraquinha de estrada, a uns 100 metros numa rua perpendicular àquela em que iria passar o autocarro. O dilema era ir lá comprar a água e arriscar-me a perder a camioneta, se ela passasse nesse momento. Após meia hora de espera, com uma sede cada vez maior, e pensando que ia ter pela frente uma viagem de 3h de Bus resolvi arriscar e ir comprar uma água nessa barraca à beira da estrada. Inevitavelmente é sempre nessas alturas que o autocarro passa!!! Já o autocarro ia a partir, quando dei por ele, e tive que dar um berro de longe. Acho mesmo que nunca antes terei berrado tão alto na minha vida. Por sorte todas as pessoas que estavam junto do autocarro ouviram o meu berro e desataram a correr, a gritar e a abanar os braços para o autocarro e graças a eles e com uma correria esbaforida com as mochilas em cima lá consegui apanhá-lo.
Os autocarros locais nas zonas rurais servem também para transporte dos produtos dos lavradores a caminho do mercado ou de vendas de rua, na cidade. Os revisores têm aqui o papel de "monta cargas".

A maioria dos ocidentais adoptam aqui uma postura de superioridade, perante um povo supostamente inferior que tem como único objectivo extorquir dinheiro.
É surpreendente a simpatia do povo Tailandês se formos igualmente simpáticos. Aliás, um simples gesto de simpatia, que no mundo ocidental passaria despercebido ou ignorado, é aqui muito mais facilmente reconhecido, e mais do que isso, retribuído. Passou-se comigo, nesta viagem, um episódio que ilustra bem isso:
Numa das paragens desta viagem de autocarro estava uma velhota com umas dez sacas enormes, de diferentes frutas e verduras. O revisor, um pouco franzino, ia descer para as carregar quando eu me ofereci para o fazer. Só por este simples facto, por ter dado essa ajuda, várias pessoas (passageiros tailandeses) vieram agradecer-me com uma palmadinha no ombro, e o revisor de 16 ou 17 anos, cujo nome se pronunciava algo como Chaler, veio sentar-se ao meu lado oferecendo-me um cigarro. Quis saber de onde eu era, o que fazia, idade e preço das coisas em "Potugué". Potugué, como eles dizem, é um pais bem conhecido dos tailandeses. Todos aprendem na escola que fomos os primeiros ocidentais a chegar à Tailândia.
A viagem decorreu de portas abertas, não sei se por estarem estragadas se para improvisar um ar condicionados. A viagem decorria a uma velocidade enorme, considerando o chaço que era e a estrada estreita. A ventania que entrava pela porta aberta fez voar o meu maço de tabaco para trás, que me foi devolvido por três rapazes que estavam sentados atrás de mim. Pelo gesto ofereci-lhes o maço para eles tirarem um cigarro. Dois deles fizeram-no e o outro mostrou envergonhadamente que já o tinha feito antes de me devolver o maço. Todos mostraram um reconhecimento pouco habitual para com os arrogantes ocidentais, ao se oferecerem todos ali à volta para me ajudarem a descarregar as mochilas.
Na chegada a Surat Thani os meus companheiros de viagem não apareceram. Tinham perdido as ligações. A cena que se passou na estação, que era o ponto de encontro combinado, foi caricata: para evitar desencontros acordámos eles porem-se à janela do comboio enquanto este chegava e eu, ao avistá-los, iria a correr comprar bilhete para nós os três e embarcar no comboio deles. Nem eu embarcava sem os ver a eles no comboio nem eles seguiam viagem sem me verem na estação. Como tal teria eu que comprar bilhete para os três para a continuação da viagem.
Para complicar estava uma tal enchente na estação que era impossível eu ser avistado por eles, e para complicar, o número de cabeças que vinham à janela do comboio eram tantas que não seria fácil eu avistá-los.
A forma que eu arranjei para garantir que era visto, foi subir de imediato para as costas de um dos bancos de espera na plataforma e aí em pé, bem acima de todos os passageiros, tentei ver as cabeças deles, mas nada, não consegui encontrá-los nem ter confirmação que me viam a fazer aquela "figura de pedestal".
Não apareceram e a cena repetiu-se no comboio seguinte e último do dia.
Devem ter perdido a ligação. Comprei um cartão de telefone e lá consegui falar com eles. Confirmava-se!!! Ia ficar um dia à espera deles em Surat Thani. É da forma que tenho tempo de ir visitar o mosteiro Budista que no início da viagem me tinham falado, Suan Mokkh.

Dirigi-me para a agência de turismo onde já tinha estado, para marcar o hotel dessa noite e o comboio para o dia seguinte. Surpresa foi dizerem-me que pouparia tempo e dinheiro de fosse directamente à estação e comprasse lá o bilhete. Fiquei a perceber que a mentalidade deles é mais íntegra do que julgava. Eles vendem-nos a informação que eles têm, mas não quer dizer que tenham que nos extorquir dinheiro. Nós é que adoptamos a posição de alvo óptimo e chorudo sem nos preocuparmos em olhar para lá das aparências iniciais.

A viagem de autocarro para aqui levou 3 horas, para supostamente me vir encontrar com eles à hora e local combinado. Mas fiquei pendurado. Amanhã se eles chegarem a tempo vamos ter cerca de 36 horas de comboio para Norte. Hoje já fiz o “check in” num hotel decente, com uma cama decente, refrigeração decente e uma casa de banho decente, coisa que já não tinha há muito.
E agora depois de ter comido estou aqui a matar tempo e pôr a correspondência em dia com todos.

Dia 12
-Acordar numa cama decente e num quarto decente pela primeira vez em algum tempo. Que luxo!!!
-Banho (o único das próximas 48 horas)
-Fazer mala.
-"Check out" do hotel
-Pequeno almoço Inglês à agência turística
-Apanhar Bus para Suan Mokkh. Os meus amigos só chegariam de comboio ao final do dia.

Suan Mokkh é o mosteiro que me tinha sido indicado pelo monge de Nakom Pathom. Em Suan Mokkh são organizados retiros de meditação de 10 dias, a começar todos os dias 1 de cada mês. É necessário chegar de véspera. Estes retiros estão orientados para ocidentais que pretendam aprender sobre Budismo e meditação. Os monges ou são de origem ocidental ou falam Inglês. São retiros rigorosos em que todos os pertences pessoais são guardados à entrada e só podem ser levantados à saída. São 10 dias de aulas e meditação intensivos com início às 5 da manhã.

Eu não pretendia fazer o retiro, até porque já estava a decorrer há 5 dias. Mas queria visitar o mosteiro.
Quando lá cheguei fui recebido muito simpaticamente por um monge que estava numa recepção por baixo de um telheiro.
Convidou-me para comer com ele tirando uns saquinhos de plástico com comida com caril tendo-os despejado em dois pratos.
Numa conversa simples e despretensiosa, andando pelos enormes jardins do templo deu-me uma lição sobre o Budismo Tailandês, tendo-me recomendado vários livros que adquiri na biblioteca deles.
À saída despedimo-nos, apresentando-nos finalmente e foi quando percebi que aquele monge estava numa hierarquia elevada e no entanto não poderia ter sido mais simpático, acessível e humilde. Talvez os nossos religiosos pudessem aprender com estes Budistas.
-Despedida
-Bus de volta a Surat Thani (estação)
-Esperar pela vinda deles.
-A cena da estação repetiu-se mas desta vez com o tão esperado encontro. Assim que os avistei fui a correr comprar os bilhetes (2ª classe com cama) enquanto eles esperavam junto ao comboio. O picas viu a minha correria pelo que o comboio não arrancava enquanto não entrássemos.
-Bye Surat Thani!! Here we go Bangkok (embora para já só de passagem a caminho de Xiang Mai)!!
-Deitar na cama e Dormir. Os vagões cama são relativamente confortáveis e uma boa opção para poupar uma noite de hotel.

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